sábado, 14 de junho de 2014

O Conto da Ilha Desconhecida - José Saramago

"(...) 
Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por trás de uns bidões, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, Para o meu gosto, aquele, pensou, porém a sua opinião não contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dirá o capitão do porto. O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse.
(...)"

Transcrito de O Conto da Ilha Desconhecida de José Samarago, foi lançado em 1997 e está disponível em http://contobrasileiro.com.br/


José Saramago, um dos maiores nomes da literatura portuguesa, jornalista, escritor e poeta, nascido em 1922 e falecido em 2010. Ganhador dos Prêmios Nobel e Camões, tem vasta obra de contos e romances, incluindo Ensaio sobre a Cegueira, adaptado para o cinema. Deixou como legado, além de sua obra, a Fundação José Saramago com o objetivo de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, situada na Casa dos Bicos, em Lisboa - Portugal.
Saramago nos presenteia com um texto, que embora curto, é extremamente denso de conteúdo e imagens. Nos faz questionar sobre nossa acomodação com os papéis sociais e o medo do desconhecido. Nos traz uma escrita que rompe com as regras da gramática, mas não com a musicalidade do texto e a magia das palavras. O conto é divertido e filosófico, no sentido de que nos faz pensar sobre a eterna busca do homem sobre si mesmo e o sentido da vida.
No conto, um homem simples demanda ao Rei um barco para navegar até uma ilha desconhecida, que acredita existir, mas que só de fato saberá se o é, quando lá chegar e torna-la então conhecida.
O sonho e a imaginação tornam a aventura possível. A ficção nos permite viajar até lugares inimagináveis, sem necessariamente sair de onde nos encontramos. Essa é a magia dos livros a nos transportar a lugares possíveis e impossíveis. Para sonhar, basta existir!
Por F@bio