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segunda-feira, 8 de março de 2021

A resistência - Julián Fuks

"Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado. Se digo assim, se pronuncio essa frase que por muito tempo cuidei de silenciar, reduzo meu irmão a uma condição categórica, a uma atribuição essencial: meu irmão é algo, e esse algo é o que tantos tentam enxergar nele, esse algo são as marcas que insistimos em procurar, contra a vontade, em seus traços, em seus gestos, em seu atos. Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter. Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz.

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Na minha lembrança os olhos do meu irmão estavam lacrimosos, mas desconfio que essa seja uma nuance inventada, acrescida nas primeiras vezes que rememorei o episódio, turvado lá por algum remorso. Ele estava sentado no banco da frente. Se chorava, decerto continha qualquer soluço e escondia as lágrimas com as mãos; ou voltava o rosto para a janela, extraviava a vista em presumíveis pedestres. O caso é que não olharia, não viraria para trás. Talvez fossem os meus, os olhos, lacrimosos.

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É preciso aprender a resistir. Nem ir, nem ficar, aprender a resistir. Penso nesses versos em que meu pai não poderia ter pensado, versos inescritos na época, versos que lhe faltavam ... Resistir: quanto em resistir é aceitar impávido a desgraça, transigir com a destruição cotidiana, tolerar a ruina dos próximos? Resistir será aguentar em pé a queda dos outros, e até quando, até que as pernas próprias desabem? Resistir será lutar apesar da óbvia derrota, gritar apesar da rouquidão da voz, agir apesar da rouquidão da vontade? É preciso aprender a resistir, mas resistir nunca será se entregar a uma sorte já lançada, nunca será se curvar a um futuro inevitável. Quanto do aprender não será aprender a perguntar-se?


Trechos do romance "A resistência", de Julián Fuks. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


Julián Miguel Barbero Fuks é paulistano, nascido em 1981, filho de pais argentinos. É graduado em Jornalismo, com mestrado em Letras e doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Crítico literário e jovem autor de algumas obras premiadas: "História de literatura e cegueira" (2007) e "Procura do romance" (2012), ambos finalistas dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom; "A Resistência" (2015) ganhador dos prêmios Jabuti e Literário José Saramago. 

Em sua ficção, mesclada com fundas reflexões e memórias autobiográficas, o autor nos traz o delicado e complexo tema da adoção, no caso de um irmão mais velho, anterior ao seu nascimento, quando os pais residiam em Buenos Aires. Tempos tensos em que a resistência por vezes exige recuos, retiradas, exílio. Os pais fogem apressados de uma ditadura a outra, mas esta, a do Brasil, deveria ser transitória, de passagem para outros destinos. Mas a cidade acolhe e resistir também é ficar. Os pais acabam sendo adotados por São Paulo, onde fixam residência e têm outros filhos. 

O próprio autor, em entrevista à revista Cult, nos conta que o título inicial, que seria "O irmão possível", acabou sendo abandonado e "A resistência" se impôs: "... surgiu e me pareceu complexo o bastante, porque há muitas resistências ao longo do livro. Pode não estar mencionada assim. A resistência dos pais à ditadura militar é a mais imediata, mas há a resistência do irmão ao convívio familiar, a resistência do narrador ao contar essa história. Então tem uma série de resistências atravessando o livro e é aproximando dessa noção mesmo: de resistir como um ato simples de existência, existir e resistir como duas coisas muito relacionadas. Hoje está se fazendo muito esse trocadilho com o reexistir: voltar a existir. Resistir seria uma forma de voltar a existir. Gosto, especialmente, do que a palavra tem de ambivalente: resistência como algo negativo, como uma recusa a alcançar algo ou, pelo contrário, como um ato de força, de posicionamento diante de uma situação que exige uma tomada de posição. Eu gosto de pensar a literatura como capaz de fazer essa transição: do sentido mais negativo de resistência para o sentido mais positivo. Por meio da escrita a gente pode transformar uma resistência na outra". (Lei a entrevista completa em: https://revistacult.uol.com.br/home/o-brasil-e-incapaz-de-refletir-sobre-seu-passado-diz-julian-fuks/)

O ato de resistir é a luta cotidiana pela existência e pela liberdade, é a busca sem tréguas pela vida, e isso exige se contrapor a quem prega a morte e a submissão. Sobretudo nesses tempos de desvalorização da vida e supressão da liberdade, resistir é preciso, necessário, é ato de fé e coragem.

E resistir também é ler um livro. Uma ótima leitura e vamos resistir!

Por F@bio