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quarta-feira, 30 de junho de 2021

Doidinho - José Lins do Rego

"Fazia um mês que eu chegara ao colégio. Um mês de um duro aprendizado que me custara suores frios. tinha também ganho o meu apelido: chamavam-me de Doidinho. (...) E a verdade é que eu não repelia o apelido. Todos tinham o seu. Havia o Coruja, o Pão-Duro, o Papa-Figo.

...

E levou-me para o meio dos outros. Ria-se de tudo, entre os parentes reunidos. A morte de meu pai fora notícia de um fato velho, de que já pareciam ter conhecimento. Ninguém se preocupava com um doido de há dez anos. E, calado, eu via a fogueira queimando no pátio e o chiar do mijão dos meninos brincando. As pistoletas estouravam as suas bolas de fogo. Na banca do alpendre, com a conversa de todos e a brincadeira dos meninos, era o mesmo que se estivesse no quarto do meio, do colégio, de castigo. Sentia ainda na boca o gosto salgado das lágrimas engolidas, e para onde olhava descobria o morto escondido no caixão, de braços cruzados. Ouvia o tio Juca contando a história da briga com Silvino, para lisonjear a minha coragem:

- Muito menor do que o o outro, e botou-o para correr.

Ele queria sarar a minha mágoa. Ia criando interesse para mim a história. E de súbito, num segundo, voltava a visão do meu pai morto, de braços cruzados."


Trechos transcritos do romance "Doidinho", de José Lins do Rego - 46ª edição. Rio de Janeiro : José Olimpio, 2011.


José Lins do Rego Cavalcanti, conforme sua biografia constante da Academia Brasileira de Letras - ABL,  foi romancista e jornalista. Nasceu no Engenho Corredor, município de Pilar, Paraíba, em 3 de junho de 1901, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de setembro de 1957. Formou-se em 1923 na Faculdade de Direito do Recife. Nomeado em 1925 promotor em Manhuaçu - MG, casou-se com  D. Naná (Filomena Masa Lins do Rego), e transferiu-se em 1926 para a capital de Alagoas, onde passou a exercer as funções de fiscal de bancos até 1930 e fiscal de consumo de 1931 a 1935. Em Maceió publicou o primeiro livro, "Menino de engenho" (1932), obra que se revelou de importância fundamental na história do moderno romance brasileiro.  Em 1933, publicou o segundo livro, "Doidinho". Em 1935, já nomeado fiscal do imposto de consumo, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde passou a residir e integrou-se plenamente na vida carioca. Continuou a fazer jornalismo, que iniciara no Recife e Maceió, colaborando em vários periódicos com crônicas diárias. Revelou-se, então, sua faceta esportiva, sofrendo e vivendo as paixões desencadeadas pelo futebol, o esporte de sua predileção, foi fanático torcedor do Flamengo. Exerceu o cargo de secretário-geral da Confederação Brasileira de Desportos de 1942 a 1954.  Publicou também, dentro do  “Ciclo da cana-de-açúcar”:  Banguê, Fogo morto e Usina. No “Ciclo do cangaço, misticismo e seca”: Pedra Bonita e Cangaceiros. E ainda: O moleque Ricardo, Pureza, Riacho Doce; Água-mãe e Eurídice. Recebeu o Prêmio da Fundação Graça Aranha, pelo romance Menino de engenho (1932); o Prêmio Felipe d’Oliveira, pelo romance Água-mãe (1941), e o Prêmio Fábio Prado, pelo romance Eurídice (1947).



Doidinho tem por protagonista o menino Carlinhos, que vive a experiência de um colégio interno com os rigores do sistema educacional do início do Século XX. Nele, experimenta a inadaptação aos métodos rigorosos e violentos e as injustiças praticas em nome da disciplina e da ordem. Mas na mesma escola fará importantes amizades e terá suas primeiras incursões no mundo da literatura.


José Lins do Rego constrói um texto com base em memórias e reminiscências da infância e adolescência. Apesar das agruras e perdas, há espaço para a solidariedade e o amor, ainda que este venha como redenção ou inferno. No livro podem ser encontradas belíssimas passagens plenas de imagens poéticas, como quando é surpreendido pelo diretor: "seis bolos cantaram nas minhas mãos. Fiquei de pé na frente da mesa, oprimindo os soluços que se elevavam com o protesto de minha sensibilidade machucada". Ou quando o colega Coruja conversa com ele: "falou-se da irmã, que voltara do colégio doente. Ela tinha um olho cego, furado numa brincadeira com ele, quando eram bem pequenos. Coitado do Coruja! Havia esta mágoa profunda dentro dele: a irmã cega de um olho por sua culpa. Eu só sei que a consolação das minhas dores ele me trouxe, derramando o óleo de suas confidências sobre minhas feridas abertas". Ou ainda, ao referir-se a uma família de miseráveis: "Os molequinhos com os pratos de barro na mão, enchendo as barrigas grávidas de vermes. Comi também aqueles caroços duros de feijão com farinha, aqueles pedaços de batata-doce com café".

É um livro de leitura envolvente e que nos leva a ter uma visão da vida no interior nordestino no início do Século passado.

Boa leitura!

Por F@bio