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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Madame Bovary - Gustave Flaubert

"Ela o encantava com um grande número de delicadezas; ora era uma nova maneira de fazer arandelas de papel para velas, um babado que mudava em seu vestido ... um estojo de marfim com um pouquinho de prata dourada. Menos Charles compreendia tais elegâncias, mais sofria sua sedução. Elas acrescentavam alguma coisa ao prazer de seus sentidos e à doçura de seu lar."

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"Antes de casar, ela julgara ter amor; mas como a felicidade que deveria ter resultado daquele amor não viera, ela deveria ter-se enganado, pensava. E Emma procurava saber o que se entendia examente, na vida, pelas palavras felicidade, paixão, embriaguês, que lhe haviam parecido tão belas nos livros."

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"O que a exasperava era que Charles não parecia suspeitar de seu suplício. Sua convicção de que a fazia feliz parecia-lhe um insulto imbecil e sua segurança nesse ponto parecia-lhe ingratidão"

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"E a idéia de ter um filho homem era como a esperança da compensação de todas as impotências passadas. Um homem pelo menos é livre; pode percorrer as paixões e os países, atravessar os obstáculos, agarrar a mais longínqua felicidade. Mas uma mulher é continuamente impedida. Inerte e flexível, ao mesmo tempo tem contra si a languidez da carne com as dependências da lei. Sua vontade, como o véu de um chapéu preso por uma fita, palpita ao sabor de todos os ventos, há sempre algum desejo que arrasta, alguma conveniência que retém."

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"Repetia a si mesma: 'Tenho um amante! Um amante!', deleitando-se com essa ideia como com a de uma outra puberdade que a tivesse atingido. Portanto, ia possuir enfim aquelas alegrias do amor, aquela febre de felicidade da qual desesperara. Entrava em algo maravilhoso, onde tudo seria paixão, êxtase, delírio; uma imensidão azulada a rodeava, os cumes do sentimento cintilavam sob seu pensamento, a existência comum só aparecia ao longe, lá embaixo, na sombra, entre os intervalos daquelas alturas."

Trechos do romance "Madame Bovary", de Gustave Flaubert (Tradução de Fúlvia M.L. Moretto). São Paulo: Abril, 2010.

Gustave Flaubert (1821 - 1880) foi um escritor francês que marcou a literatura pela profundidade de suas análises psicológicas, pelo seu rigor descritivo, pelo seu senso sobre o comportamento social e a realidade, criando um estilo próprio. Era um obsessivo que buscava a palavra precisa, o ritmo certo, a linguagem densa e correta. Dentre suas poucas obras, destancam-se Madame Bovary (1856), A Educação Sentimental (1869) e Salammbô (1862).

Após quatro anos dedicados a escrita do livro, Madame Bovary foi publicado em seis números da Reveu de Paris, de outubro a dezembro de 1856, onde uma passagem inteira - a famosa "cena do fiacre" - foi censurada (os conservadores sempre mostrando suas garras e tentando ceifar a arte e a liberdade, parece que a história se repete sempre). Flaubert protestou, mas a reação foi ainda mais dura, pois o advogado imperial apresentou uma acusação contra o escritor por "ofensas à moral pública e à moral religiosa". O que levou Flaubert a escrever que "a arte em si, parece sempre insurrecional aos governos e imoral aos burgueses". A judicialização fez o assunto ganhar o noticiário e, quando o livro foi finalmente lançado, após obter uma decisão favorável da justiça, fez enorme sucesso, o que desapontou o escritor, pois muitos leram o romance mais por ter sido acusado de indecente e picante, do que por sua arte literária.

Portanto, o livro é um clássico, considerado um divisor de águas, rompendo com o romantismo, e criando uma literatura realista que se contrapõe a idealização do amor, gerando polêmica ao tratar de temas como o adultério e o suicídio. Pode-se dizer que o livro é feminista, na medida em que Emma luta pelo "direito ao prazer", numa "rebelião cega, tenaz e desesperada contra a violência social que sufoca esse direito" como destaca Vargas Llosa. O que causa ainda mais espanto é saber que Madame Bovary foi lançado em 1856, ou seja, passados mais de século e meio, mantém-se como uma das maiores obras da literatura mundial.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa escreveu um livro inteiro sobre Flaubert e Madame Bovary (A orgia perpétua. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013), no qual mergulha não só no romance, mas na obra de Flaubert. Dessa extensa análise crítica de Llosa, transcrevemos:

"`Há, de um lado, a impressão que Emma Bovary deixa no leitor que se aproxima dela pela primeira (segunda, décima) vez: a simpatia, a indiferença, o tédio. De outro, o que constitui o próprio romance, prescindindo do efeito de sua leitura: a história que é, as fontes de que se vale, a maneira como se faz tempo e linguagem. E, finalmente, o que o romance significa, não em relação a quem o lê, nem como objeto soberano, mas sim do ponto de vista dos romances escritos antes ou depois...

E prossegue Llosa falando sobre como foi sua primeira leitura do livro, após adquri-lo em Paris em 1959: "Comecei a ler nessa mesma tarde...Desde as primeiras linhas, o poder de persuasão do livro agiu sobre mim de maneira fulminante, como um feitiço poderosíssimo. Fazia anos que nenhum romance vampirizava tão rapidamente minha atenção, abolia assim o entorno físico e me submergia tão profundamente em seu mundo. À medida que avançava a tarde, caía a noite, apontava o alvorecer, era mais eficiente o transbordamento mágico, a substituição do mundo real pelo fictício..."

Como se vê, trata-se de uma leitura envolvente, da qual não dá vontade de se afastar antes do fim. Queremos acompanhar a narrativa, mas mais do que isso, desvendar Emma na sua inquietude, sua busca incessante pela felicidade.

Quem curte literatura, não pode deixar de ler essa obra fundamental. E o livro de Vargas Llosa é um excelente complemento, uma crítica que nos amplia os horizontes do romance de Flaubert. Ótima leitura!

Por F@bio