quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Cemitério de Navios - Ledo Ivo

De: Ledo Ivo

Aqui os navios se escondem para morrer.


Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.


E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.


O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.


A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas


sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.


Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho


que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.


E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,


um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.


Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos


varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!




Essa poesia me fez recordar o tempo em que vivia em Niterói e passava pela Estrada do Contorno onde ficava uma área conhecida como "cemitério de navios", por ironia próxima ao Cemintério do Maruí. Era uma área entre o Barreto e a Ilha da Conceição para a qual os navios eram levados para o desmonte, para virar sucata. Não sei se ainda é assim. Quem sabe veio daí a inspiração de Ledo Ivo, que vive no Rio de Janeiro.
Ali pude ver navios recolhidos para a morte, encalhados, sem apito, surdos e mudos. Quantas histórias guardam seus porões, talvez reveladas pelas cicatrizes no casco. Não mais o esplendor dos mundos mas a treva eterna.
Ledo Ivo é jornalista, romancista, cronista, tradutor, ensaísta e poeta. Membro da Academia Brasileira de Letras, esse alagoano de Maceió é também um memorialista de seus contemporâneos, vide a entrevista concedida para Geneton Moraes Neto (http://www.geneton.com.br/archives/000052.html).
Por
F@bio