sábado, 9 de janeiro de 2010

Mar português - Fernando Pessoa

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."

 
Em "Fernando Pessoa: Antologia Poética" (pág. 31). Organizada por Álvaro Cardoso Gomes. Poesia. São Paulo: Moderna, 1994.
Retrato de Fernando Pessoa por Almada Ribeiro em 1954 obtido de: http://www.ciencias.com.br/pagina_bedaque/pessoa/FP.htm
Desenho de nau de três mastros obtido de http://www.popa.com.br/docs/cronicas/navios-portugueses.htm

Considerado o maior poeta da língua portuguesa, Fernando Pessoa, nascido em 1888 e que veio a morrer precocemente em 1935, foi uma figura ímpar do modernismo em Portugal. Aliás, Pessoa na verdade não foi um, mas vários, pois adotou os heterônimos de Álvaro Campos, Alberto Caieiro e Ricardo Reis. Em Mar Português, Pessoa destaca o feito épico das navegações e responde a uma pergunta bastante relevante para seu tempo: "tantas perdas teriam valido a pena?" E responde com o seu versejar de poeta: "tudo vale a pena se a alma não é pequena".
O pionerismo ibérico permitiu que fosse dado grande impulso ao comércio exterior no Séc. XVI. Geoffrey Blainey no livro "Uma Breve Histórida do Mundo" (2a. Edição, São Paulo: Editora Fundamento Educacional, 2008) destaca dois aspectos muito relevantes das navegações: primeiro, as navegações alteraram a modalidade de transporte de marcadorias entre o oriente e o ocidente, suplantando a rota da seda ("Durante séculos, uma infinidade de produtos e plantas asiáticas atravessou toda a extensão da Ásia por terra, mas agora tudo fluía pelas rotas do mar"); e, em segundo, ampliaram de forma espetacular as trocas entre os continentes ("Nunca antes na história do mundo haviam sido transferidas tantas plantas valiosas de um continente ao outro").
Blainey (pág. 203) salienta que Portugal e Espanha foram pioneiros porque eram fortes nas navegações, mas depois foram suplantados por Inglaterra, Holanda e França. Diversos produtos agrícolas, minerais, manufaturados e animais foram levados para a Europa e sua valorização estimulou o comércio exterior e o surgimento de empresas especializadas em transporte naval e comércio internacional (as companhias das índias). Milho, batata, pau-brasil, tomate, ouro, cacau, prata, peru, abacaxi, tabaco, gemas vieram das Américas. Porcelana, almíscar, pimenta, cravo foram trazidos da Ásia. Indigo, metais, diamantes da África. Muitos pacotes, caixas, barris, ânforas chegavam aos armazéns europeus e eram considerados tão preciosos quanto o ouro.
Blainey (pág. 210) observa que as"viagens de Colombo, Vasco da Gama e outros navegadores europeus pelos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico promoveram uma revolução na agricultura do mundo. Junto com as cargas acondicionadas nos conveses ou trancadas no porão, havia pequenas remessas de sementes e mudas que eram eventualmente transportadas por uma série de acontecimentos premeditados ou casuais para todos os continentes. O café, o algodão, o açúcar e o índigo foram para as Américas para serem cultivados em larga escala, com suas colheitas sendo exportadas para a Europa."
Por
F@bio