domingo, 2 de fevereiro de 2014

Gabriela, Cravo e Canela 2 - Jorge Amado

"Diversas vezes retardados, terminaram por fim os trabalhos da barra. Um novo canal, profundo e sem desvios, fora estabelecido. Por ele podiam passar sem perigo de encalhe os navios do Lloyd, do Ita, da Bahiana e, sobretudo, podiam entrar no porto de Ilhéus os grandes cargueiros, para ali receber diretamente os sacos de cacau.
Como explicou o engenheiro-chefe, a demora na conclusão das obras deveu-se a inúmeras dificuldades e entraves. Não se referia aos barulhos cercando a chegada dos rebocadores e técnicos, àquela noite de tiros e garrafadas no cabaré, às ameaças de morte iniciais. Aludia às inconstantes areias da barra: com as marés, os ventos, os temporais, moviam-se elas, mudavam o fundo das águas, cobriam e destruíam em poucas horas o trabalho de semanas. Era preciso começar e recomeçar, pacientemente, mudando vinte vezes o traçado do canal, buscando os pontos mais defendidos. Chegaram os técnicos, em determinado momento, a duvidar do sucesso, tomados de desânimo, enquanto a gente mais pessimista da cidade repetia argumentos da campanha eleitoral: a barra de Ilhéus era um problema insolúvel, não tinha jeito.
Partiram os rebocadores e dragas, os engenheiros e técnicos. Uma das dragas ficou permanente no porto, para atender com presteza às movimentadas areias, para manter o novo canal aberto à navegação de maior calado.
Uma grande festas de despedida. cachaçada monumental, iniciando-se no Restaurante do Comércio, terminando no El-Dorado, celebrou o feito dos engenheiros, sua pertinácia, sua capacidade profissional. O Doutor esteve à altura de sua fama no discurso de saudação onde comparou o engenheiro-chefe a Napoleão, mas 'um Napoleão das batalhas da paz e do progresso, vencedor do mar aparentemente indomável, do rio traiçoeiro, das areias inimigas da civilização, dos ventos tenebrosos', podendo contemplar com orgulho, do alto do farol da ilha de Pernambuco, o porto de Ilhéus por ele 'libertado da escravidão da barra, aberto a todas as bandeiras, a todos os navios, pela inteligência e dedicação dos nobres engenheiros e competentes técnicos'.
Deixaram saudades e raparigas. No cais de despedidas, choravam mulheres dos morros, abraçando os marinheiros. Uma delas estava grávida, o homem prometia voltar. O engenheiro-chefe levava preciosa carga da boa Cana de Ilhéus, além de um macaco jupará para recordar-lhe, no Rio, essa terra de dinheiro farto e fácil, de valentias e duro trabalho.
(...)
Quando faltavam apenas quatro dias para o domingo das eleições, por volta das três horas da tarde, o navio sueco, cargueiro de tamanho jamais visto naquelas paragens, apitou majestoso no mar de Ilhéus. O negrinho Tuísca saiu a correr com a notícia e a distribuía de graça nas ruas do centro. A população juntou-se na avenida da praia.
Nem a chegada do bispo foi assim animada. Os foguetes subiam, estouravam no céu. Apitavam dois baianos no porto, os búzios das barcaças e lanchas saudavam o cargueiro. Saveiros e canoas saíram fora da barra, afrontando o mar alto, para comboiar o barco sueco.
Atravessou lentamente a barra, dos seus mastros pendiam bandeiras de todos os países, numa festa de cores. O povo corria pelas ruas, reunia-se no cais. Formigavam as pontes, repletas de gente. Veio a Euterpe 13 de Maio tocando dobrados, Joaquim no bombo a bater. Fechou o comércio suas portas. Feriaram os colégios particulares, o grupo escolar, o ginásio de Enoch. A meninada aplaudia no porto, as moças do colégio de freiras namoravam nas pontes. Buzinavam automóveis, caminhões e marinetes. (...) A cidade de Ilhéus inteira no cais.
Numa cerimônia simbólica, ideia risonha de João Fulgêncio, Mundinho Falcão e Stevenson, exportadores, Amâncio Leal e Ribeirinho, fazendeiros, carregavam um saco de cacau até o extremo da ponte onde o navio ancorara, o primeiro saco de cacau a ser embarcado diretamente de Ilhéus para o estrangeiro..."

Transcrito do livro Gabriela, Cravo e Canela: Crônica de Uma Cidade do Interior, de Jorge Amado (páginas 388, 389 e 396). São Paulo : Companhia das Letras, 2008.

Jorge Amado, em Gabriela deixa de lado seu explícito engajamento político de livro anteriores, libertando-se do realismo socialista. Ao mesmo tempo mantém no romance o cenário histórico-social da região cacaueira do sul da Bahia. Apresenta, lado a lado, o embate político dos coronéis (a lavoura arcaica) e dos exportadores (a nova burguesia comercial) e a história de amor entre o imigrante sírio Nacib e Gabriela, a mulata retirante, flor da terra e sua afirmação de liberdade. Há ainda no romance uma "polifonia das vozes sociais" na análise de José Paulo Paes, que acrescenta que a obra apresenta duas claves que "confluem no empenho modular, por nexos progressivos de consonância, a passagem do individual ao grupal, do econômico ao ético, do histórico ao mítico, do sentimental e do dramático ao cômico e ao picaresco, num amplo, variegado tecido sinfônico cujo poder de convencimento dá a medida do grau de mestria a que pôde chegar a arte de ficção de Jorge Amado". Jorge Amado, como faz em grande parte de sua vasta produção literária, alia a ficção à fatos históricos e em Gabriela coloca como pano de fundo de seu romance a história da cidade de Ilhéus e de seu porto.
Por F@bio