sábado, 17 de abril de 2010

Jubiabá - Jorge Amado

"...Então é para o grande cais dos transatlânticos que se dirigem. Vão ver os homens que embarcam à noite, misteriosamente, levando sob o braço sobretudos e embrulhos; vão ver os homens que trabalham na descarga dos navios. São negros e parecem formigas que levassem enormes fardos. Andam curvos como se em vez de sacos de cacau carregassem sob as costas o seu próprio destino desgraçado. E os guindastes, como monstros gigantescos que rissem dos homens, levantam fardos incríveis que ficam balançando no ar. E rangem e gritam e andam sobre trilhos, guiados pelos homens de macacão que estão trepados dentro dos cérebros dos guindastes."

 




Do Livro "Jubiabá", de Jorge Amado, (pág. 76). Romance. São Paulo: Livraria Martins Editora, 27a. Edição, 1971. 


O livro foi escrito por Jorge Amado, em 1935, ainda na fase juvenil do autor que tinha somente 23 anos. Trata da trajetória de Antonio Balduíno, menino pobre e favelado, cuja mãe enlouquece e é recolhida a um manicômio, onde vem a falecer. Uma vizinha, com apoio de Jubiabá, pai-de-santo e guia espiritual da comunidade do Morro do Capa Negro, leva o menino para ser criado por uma familia de classe média branca. Mas Balduino foge após intriga que o incrimina de desejar a filha do dono da casa, Lindinalva. Torna-se um moleque de rua, lidera uma gangue, como os Capitães da Areia. Cresce e se torna boêmio, compositor de sambas de sucesso que vende para um intelectual. Vira boxeador e após uma derrota, foge novamente, indo trabalhar nas plantações de fumo. Lá se envolve em briga e foge de novo. Torna-se ator de circo mambende, volta à vida boêmia, reencontra Lindinalva que se tornara prostituta após a falência e morte do pai. Lindinalva, que nunca saíra de suas fantasias sexuais, morre e faz um pedido para Balduíno, que cuide de seu filho. Balduino torna-se estivador e lider de uma greve. A militancia sindical passa a ser razão de sua vida.  
A idéia central do livro é mostrar o sugimento de um lider sindical, a partir do lento amadurecimento do protagonista, rumo à consciência política. É um romance popular característico do "realismo socialista", com elementos sensuais e apimentados da  cena baiana que Jorge Amado soube muito bem retratar. O livro podia se chamar Balduíno, mas o autor preferiu homenager a cultura negra e seus símbolos tão presentes na Bahia, a quem chama "cidade religiosa" referindo-se à Salvador. 

 
No trecho transcrito, é descrito o cenário do Porto de Salvador dos anos 30 do século passado. O porto conta com personagens misteriosos, como nas novelas noir, mas também com trabalhadores sofridos que carregam fardos ou o "próprio destino desgraçado". Mas esses estão sendo  substituídos por guindastes gigantescos, que nos dias de hoje pareceriam brinquedos. Esses monstros "rangem e gritam e andam sobre trilhos, guiados pelos homens de macacão que estão trepados dentro dos cérebros dos guindastes", uma descrição a lá Tempos Modernos de Chaplin


Uma grande curiosidade da obra é o bar "Lanterna dos Afogados", reduto dos estivadores e boêmios, que inspirou a música de Herbert Viana (veja comentário na postagem abaixo).
Por F@bio