sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Mangue - Manuel Bandeira

"Mangue mais Veneza americana do que Recife
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta
Café baixo
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
A Light fazendo cruzvaldina com resíduo de coque
Há macumbas no piche
       Eh cagira mia pai
       Eh cagira
E o luar é uma coisa só..."

Primeira estrofe da poesia "Mangue" transcrito de "Melhores Poemas" (pág. 76). Autor: Manuel Bandeira. Seleção: Francisco de Assis Barbosa. Poesia. 14a. Edição. São Paulo: Global, 2001.
Caricatura de Manuel Bandeira de autoria de Carlos Drumond de Andrade.

Bandeira é poeta maior da literatura brasileira que transpôs para as letras a dor da doença que carregou consigo uma vida quase inteira, que não foi breve: 82 anos. Barbosa suspeita que "por extravagante que pareça, foi a morte que deu vida à poesia bandeiriana". Interessante antagonismo: morte e vida. O poema retrata o porto-mangue que, apesar das referências à Veneza e Recife, fica no Rio onde se enconatram o Canal do Mangue, o Morro do Pinto e a Light (companhia de eletricidade). Ao descrever a vida dura do trabalho portuário Bandeira, no seu particular versejar, constroi um texto rico de imagens e beleza poética. Como ele próprio se autodescreveu: "Não faço poesia quando quero e sim quando ela, poesia, quer". Ainda bem que ela quis muito.