quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Velhinha Contrabandista - Luiz Fernando Veríssimo

“Todos conhecem a história da velhinha contrabandista. Todos os dias uma velhinha atravessava a ponte entre dois países, de bicicleta e carregando uma bolsa. E todos os dias era revistada pelos guardas da fronteira, à procura de contrabando. Os guardas tinham certeza que a velhinha era contrabandista, mas revistavam a velhinha, revistavam a sua bolsa, e nunca encontravam nada. Nada. Todos os dias a mesma coisa: nada. Até que um dia um dos guardas decidiu seguir a velhinha, para flagrá-la vendendo muamba, ficar sabendo o que ela contrabandeava e, principalmente, como. E seguiu a velhinha até seu próspero comércio de bicicletas e bolsas.”


Transcrito de A Velhinha Contrabandista em “O Mundo É Bárbaro e o que Nós Temos a Ver Com Isso” (pág. 41). Autor Luis Fernando Veríssimo. Crônica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
Caricatura de Veríssmo de autoria de Baptistão (www.baptistao.zip.net). 


Veríssimo nos brinda sempre com um humor sutil e inspirado. Cronista dos mais profícuos da atualidade aborda na história da velhinha uma faceta muito crítica do comércio exterior: o descaminho, vulgarmente denominado de contrabando. Contrabando é a entrada ou saída do território aduaneiro de produto proibido, ou que atente contra a saúde ou a moralidade. Já o descaminho é a entrada ou saída de produtos permitidos, mas sem passar pelos trâmites burocráticos e tributários devidos. É o que faz a velhinha nas barbas dos fiscais da alfândega. Importar bicicletas e bolsas não é proibido, o que ela faz é deixar de declarar ao fisco, evadindo o pagamento dos tributos. Essa história hilária da velhinha ilustra um lado triste do comércio exterior, particularmente no nosso País, onde a importação ilegal alcança grande relevo, vide o comércio de produtos piratas e "contrabandeados", inclusive por meio dos chamados sacoleiros.