segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Capitães da Areia - Jorge Amado

“O navio apitava nas manobras de atracação. De todos os cantos surgiam estivadores que se iam dirigindo para o grande armazém. Pedro Bala os olhou com carinho. Seu pai fora um deles, morrera por defesa deles. Ali iam passando homens brancos, mulatos, negros, muitos negros. Iam encher os porões de um navio de sacos de cacau, fardos de fumo, açúcar, todos os produtos do estado que iam para pátrias longínquas, onde outros homens como aqueles, talvez altos e loiros, descarregariam o navio, deixando vazios os seus porões. Seu pai fora um deles. Só agora o sabia. E por eles fizera discursos trepado em um caixão, brigara, recebera uma bala no dia em que a cavalaria enfrentou os grevistas. Talvez ali mesmo, onde ele se sentava, tivesse caído o sangue de seu pai. Pedro Bala mirou o chão agora asfaltado. Por debaixo do asfalto devia estar o sangue que correra do corpo de seu pai. Por isso, no dia em que quisesse, teria um lugar nas docas, entre aqueles homens, o lugar que fora de seu pai. E teria também que carregar fardos... Vida dura aquela, com fardos de sessenta quilos nas costas. Mas também poderia fazer uma greve assim como seu pai e João de Adão, brigar com policiais, morrer pelo direito deles. Assim vingaria seu pai, ajudaria aqueles homens a lutar pelo seu direito (vagamente Pedro Bala sabia o que era isso). Imaginava-se numa greve, lutando. E sorriam seus olhos como sorriam os seus lábios.”


Transcrito de “Capitães da Areia” (pág. 78). Autor Jorge Amado. Romance. Rio de Janeiro: Record, 95ª. Edição, 1998.
Caricatura de Jorge Amado de autoria de André Koehne obtido de http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jorge_Amado_caricatura.jpg.


Grande romancista brasileiro, Jorge Amado, retrata com riqueza a vida dos trabalhadores portuários, sua rotina árdua, seus dramas, suas misérias. A cultura das docas é rica em tipos, lendas, crendices, lutas e tragédias. Jorge Amado, rimancista politica e socialmente engajado que foi deputado federal pelo partido comunista brasileiro, procura mostrar o porto pelo ângulo dos trabalhadores, suas tarefas estafantes, suas lutas e reivindicações por melhores condições de trabalho e vida, onde a greve é o momento mais dramático. Um porto de trabalho, movimentação de carga, pessoas, navios e lutas sociais.